'O Hobbit': Preparando-se para uma (Muito) Esperada Jornada: Parte 2

Antes de começar, leia a PARTE 1.

Os olhos ainda turvos pela noite de sono profundo enxergam as nuvens. Susto! Do alto da colina avistamos as Terras Ermas e sua Floresta das Trevas. Sentimos o frio, o vento, a umidade e o ar rarefeito do alto das montanhas. Mais uma vez, Tolkien nos transporta para mundos impossíveis!

Depois de fugir dos Wargs, nosso diminuto herói, Bilbo Bolseiro de Bolsão, encontra-se no alto das Montanhas Sombrias, bem longe do perigo dos Orcs. Uma mistura de medo e alívio passa pela personagem e por nós leitores.

Sem demora, o grupo prossegue sua jornada. Eles encontrarão Beorn, uma das figuras mais interessante do livro. A sua descrição nos remete a um gigante – ou, ao menos, a um ser excessivamente grande e forte, lembrem-se, que o protagonista é um hobbit; uma aura de mistério nos envolve quando sabemos que Beorn também adota a forma de um grande urso. São fatos que assustam um hobbit, ou uma criança! Lembrando que Tolkien escreveu o livro pensando no público infantil, podemos imaginar seus objetivos quando vestiu com imagens tão assustadoras uma criatura tão doce e solidária: um contraponto aos Orcs; enquanto estes são assustadores e malvados, Beorn apenas aparenta, mas logo o medo cede espaço para sua doçura.

Tolkien, calmamente, vai revelando o livro como uma narrativa moral. Sim, “O Hobbit” é um livro com uma dimensão moral. Não o moralismo de um velho que deseja colocar as pessoas em uma forma. Não, Tolkien não comete esse pecado. Nem podemos atribuir essa moralidade à religião, como a de C. S. Lewis em “As Crônicas de Nárnia”. Sua moral é humanista, de alguém que ama o próximo e que deseja que as outras pessoas sejam, também, mais humanas. Com Beorn e os Orcs, o narrador pisca para o leitor: as aparências enganam, ou não...

Em sua cabana, o grupo aproveita para descansar, repor os mantimentos pedidos e planejar como atravessar a Floresta das Trevas. Seguir pela Velha Estrada da Floresta, alerta Beorn, seria muito perigoso. Não menos seria seguir pela Trilha dos Elfos, especialmente para um grupo de anões que são desafetos do Rei Élfico. E sabemos logo na saída da cabana de Beorn que a escolha da Trilha dos Elfos trará muitas dificuldades – para sorte e deleite dos leitores.

No portão da floresta, temos uma das passagens mais tocantes do livro, a separação de Gandalf. Quando li o livro, fiz questão de saber o mínimo sobre a história – com certeza jamais leria um texto como este do CinePOP antes de lê-lo. E a imagem de Gandalf (mesmo sem ainda ser o grande mago da trilogia “O Senhor dos Anéis”) deixando o grupo de anões foi angustiante! Vê-lo se despedindo de Bilbo foi tocante. Novamente a relação paternal entre essas figuras ecoava pelas páginas!

Mas todo garoto deve crescer! As crianças vão se tornar adultas. A infância vai acabar e você terá muuuuitos problemas. E esse grupo de pequenos exploradores passará por momentos mais difíceis a cada capítulo. Se os Orcs e os Wargs não foram suficientes para quebrar a confiança dos anões, a ausência de Gandalf e os problemas da floresta plantarão, finalmente, a dúvida sobre o sucesso da empreitada.

Os primeiros momentos na Floresta das Trevas são acompanhados pelo aumento da escuridão e diminuição da confiança do grupo. É interessante como o livro, em pouquíssimas páginas, substituiu a confiança pela dúvida. Mesmo nós, leitores, começamos a nos perguntar se esse plano tem alguma chance de dar certo.

A Floresta das Trevas reserva muitos, como os rios de águas encantadas e as aranhas gigantes. Todos eles vão sendo superados, em grande parte, graças à Bilbo e seu anel (até o momento, os anões desconhecem os poderes do tal anel). O capítulo que fala sobre a passagem pela floresta é longo. O talento descritivo de Tolkien fica evidente, em especial nas sequências de ação. A narrativa também aproveita para fazer com que Bilbo ganhe prestígio no grupo.

Famintos, o grupo tenta atacar uma mesa de comida em plena floresta. Miragem, ilusão, magia. O banque era dos Elfos. O resultado da fome é a prisão de todos os anões. Como de costume, caberá à Bilbo salvar o grupo.

Os anões são levados ao Castelo do Rei Élfico. Nessa passagem, descobrimos a existência de um velho desentendimento entre anões e Elfos. Bilbo usa do anel para entrar no Castelo e salvar seus amigos. O capítulo é recheado de um suspense digno do cinema. São dias até que nosso hobbit bole o plano de fuga. Ele descobre que barris de bebida são lançados no rio, rumo à Cidade do Lago. O plano é roubar as chaves dos guardar, retirar os anões das celas e colocá-los dentro dos barris para serem lançados no rio.

Como nem todo prisioneiro é humilde, alguns anões acham absurda a ideia. Mas, como sapo não salta porque gosta, todos acabam aceitando o plano. É divertidíssimo ver como os anões maiores penam para se adaptarem aos barris.

Eles chegam à Cidade do Lago, localidade habitada por humanos que vivem do comércio. A cidade fora muito próspera nos tempos do Reio Thror sob a montanha. Este era avô de Thorin, escudo de carvalho (líder dos anões). Hoje, a cidade se encontra reduzida. Vemos pontas de troncos de madeiras emergindo das águas, como um sinal de que aquele local fora muito maior.

Por conta dos ancestrais de Thorin, os anões são recebidos com festa. O povo da Cidade do Lago enxerga os visitantes como sinal da profecia sobre o fim do reino de terror do Dragão Smaug e a volta da prosperidade. Claro, a patota aproveita para mais uma vez repor as energias e os mantimentos para seguir rumo à fase final da jornada. Os anões partem rumo à Montanha Solitária, com o apoio de uma população esperançosa.

Com a chegada à desolação de Smaug, região no entorno da montanha, começamos a nos aproximar de um dos pontos altos do livro. A chegada à caverna de Smaug é cercada de expectativa. A porta encontra-se fechada! Bilbo mostrará mais uma vez seu valor, mas, ele já tem a confiança do grupo e do leitor. Voltemos, um pouco, ao começo do livro...

Nos primeiros capítulos, ficamos sabendo da existência de um mapa com algumas inscrições e do profundo interesse de Bilbo pela cartografia. Esses elementos retornam nos capítulos finais. Será através da leitura das runas presentes no mapa de Thror, que o nosso hobbit irá encontrar a passagem secreta que permitiram ao grupo ingressar na caverna. E assim ocorre.

Quando no interior da caverna, a narrativa alcança um dos pontos de maior suspense, pois sabemos que Smaug aparecerá, resta saber quando....

As primeiras imagens de Smaug são dele rodeado pelo tesouro dos anões. A descrição dos salões é impressionante! Recheados de tesouros, qualquer cálculo que tenhamos feito de quanto os anões iriam fatura fica no chinelo. A riqueza é incalculável. E tudo nas garras de Smaug.

A imagem do dragão, cercado por uma riqueza imóvel é simbólica do vazio que a ambição pode causar. Smaug, assim como todos os dragões, roubam não em razão daquilo que a riqueza pode comprar, mas para guardar coisas preciosas pelo simples prazer de tê-las! É uma alegoria perfeita do vazio da ganância. E nos perguntamos: será que os anões irão usar toda essa riqueza de forma melhor? As nobres intenções começam a ficar turvas.

Bilbo põe o anel e entra sozinho no salão do tesouro. Ponto alto do livro, – o será no cinema ? – o diálogo entre Bilbo e Smaug. O dragão percebe a presença de Bilbo. Este não revela sua identidade, inclusive buscando falar em uma língua próxima a dos dragões.

Smaug revela toda sua soberba, força e poder. Vangloria-se de suas riquezas e seu corpo vestido por pedras preciosas. Diz que nenhuma lâmina é capaz de atravessá-lo. Rola para exibir todo seu corpo. Bilbo percebe que uma parte do lado esquerdo do peito de Smaug se encontra desprotegida.

Bilbo corre para contar aos seus amigos o que descobriu. Smaug escuta e descobre a ligação do grupo com o povo da Cidade do Lago. Fúria! Ele sai da caverna disposto a derramar todo o sangue dos humanos.

A sua imagem, com asas abertas, no topo da Montanha Solitária é impressionante! Ele parte ruma à Cidade do Lago. No caminho vai destruindo tudo que encontra. Smaug surge nos céus ateando fogo e destruindo todas as casas. As pessoas tentam fugir. Os soldados tentam, em vão, derrotá-lo. As descrições são tão vivas que é injusto com este crítico tentar concorrer com Tolkien. Basta dizer que as palavras marcam imagens nas memórias de nossas retinas.

Para prosseguir a história com a derrota do dragão, Tolkien se utiliza de um expediente que, no livro, pareceu folhetinesco – um dos poucos detalhes que não me agradaram no livro: um tordo (uma espécie de pássaro) escuta a conversa dos anões e voa até a cidade para contra para Brad sobre o ponto fraco de Smaug.

Brad, um soldado da Cidade do Lago e descendente de Girion, Senhor do Valle, é o líder da resistência contra o dragão. Quando praticamente todos abandonaram a cidade (até seu governante), em meio às chamas, Brad atravessa uma flecha negra, vinda das forjas do Rei sob a montanha, matando o dragão.

Smaug foi morto! Mas, o livro ainda não acabou...

Leia a PARTE 3.