'O Hobbit': Preparando-se para uma (Muito) Esperada Jornada: Parte 1

John Ronald Reuel Tolkien nasceu em 3 de Janeiro de 1892 na cidade sul-africana de Bloemfontein. Morreu em 2 de Setembro de 1973, na cidade inglesa de Bournemoth, aos 81 anos.

Doutor em letras e filologia, Tolkien teve uma sólida carreira acadêmica, em especial como exímio linguista e pesquisador da mitologia anglo-saxão.

E como ficcionista e criador de um universo único ficou internacionalmente conhecido como J. R. R. Tolkien.

Com livros como “Mestre Gil de Ham”, “Contos Inacabados”, “O Silmarillon” e sua obra máxima “O Senhor dos Anéis”, Tolkien renovou a literatura de fantasia, elevando o gênero à patamares inéditos. Não foi apenas criador de belas histórias, mas de um universo particular. Tolkien reinterpretou lendas antigas para conceber sua Terra Média.

Em sua obra, encontramos livros mais narrativos, como “O Senhor dos Anéis”, ora livros em que busca desenvolver a pura mitologia. Tolkien chegou a criar uma língua para esse universo. Enfim, se vivo, suas falas na Comic-Con seriam disputadíssimas!
Todo esse universo começou com “O Hobbit”, livro infanto-juvenil de imenso sucesso na época. Bom, apesar das sinopses espalhadas pela rede, vale a pena resumir seu enredo: Bilbo Bolseiro de Bolsão é convidado pelo mago Gandalf e por um grupo de 13 anões para ingressar na busca para reaver o Reino de Erebor e o tesouro roubado pelo Dragão Smaug. Desse enredo simples Tolkien criou uma saga sobre honra, amizade, poder e ganância.

Antes de acompanharmos os passos da jornada do Sr. Bilbo Bolseiro de Bolsão, quero falar sobre o estilo narrativo do livro.

Pensado para um público infanto-juvenil, o livro é narrado em terceira pessoa num tom que nos remete à fala de um avozinho carinhoso sentado na cabeceira de uma cama para narrar as aventuras de Bilbo para os netinhos. Disso, temos um livro com narrativa leve, com um narrador que constantemente se dirige ao leitor, comentando ações e sentimentos das personagens, especialmente de Bilbo.

Famoso por suas passagens descritivas, Tolkien é contido em “O Hobbit”. Diluindo as descrições por entre parágrafos de ação ou diálogo, tudo surge naturalmente: locais, seres mágicos, tradições dos povos. Como que ao acaso, a mitologia desse mundo se costura na mente – diria, aos olhos – do leitor.

E a história? Bom, nossa intenção não será fazer uma resumão do livro, mas, resumindo diversos momentos da história, compreender as mensagens passadas por Tolkien e a construção de um personagem encantadoramente profundo, o Sr. Bolseiro!

Atenção: festival de spoilers a seguir!

O começo do livro se passa na vila dos hobbits, o chamado Condado, quando a tranquilidade de Bilbo Bolseiro é interrompida pela famosa “visita inesperada” de Gandalf, que lhe faz um convite. Na manhã seguinte, gradativamente, a casa de Bilbo é tomada por Gandalf e mais 13 anões.

Sem dúvida, uma das passagens mais cômicas do livro. A medida que mais e mais anões vão chegando para um “simples” café da manhã, mais e mais o protagonista fica preocupado em arranjar comida, cadeiras, talhares, pratos suficiente para todos. Fato que já deixa transparecer uma faceta de Bilbo: um sujeito preocupado, metódico. E todo bom metódico gosta de qualquer coisa, menos violar sua rotina. É nessa parte inicial, que ficamos sabendo do plano dos anões de recuperar seus tesouros e suas terras das garras de Smaug.

Bilbo entra nessa maquinaria por ser um considerado um ladrão. Talvez por um problema de tradução ou simples dificuldade de encontrar equivalente em nosso idioma, a ideia de ladrão não é de mal feitor, mas de alguém habilidoso com as mãos, capaz recuperar coisas difíceis para grandes mãos. Em nenhum momento, passa-se a ideia de Bilbo como um mau caráter.

Da saída do Condado até, pelo menos, os acontecimentos em Valfenda, – apesar de não me agradar a tradução de nomes próprios, esse foi um achado – sentimos um clima de tranquilidade. O otimismo dos anões e a relutância de Bilbo em mudar sua rotina, passam para o leitor uma sensação agradável, como se estivéssemos indo passar um domingo no parque. E falo “nós” porque já nos sentimos membros do grupo.

Quando li o livro, as breves páginas sobre Valfenda trouxeram-me um aconchego, um desejo de permanecer eternamente naquele microcosmo. Gostaria de subir nas árvores, pular nos rios, contemplar aquela natureza – algo reforçado pela bela gravura.
Um dado curioso ao longo das diversas passagens do livro é o tempo. Apesar de poucas páginas, as personagens passam um longo tempo em Valfenda. E assim, será com Beorn, no Castelo do Rei Élfico e em todo o resto. É curioso que o desejo de reaver sua fortuna contrastes com as longas estadias.

O grupo sai de Valfenda abastecido, com cavalos e mantimentos para a jornada. Daí em diante, a tranquilidade se torna artigo raro! O primeiro grande desafio são as Montanhas Sombrias. A tentativa de cruzá-las já provoca imenso desfalque nos mantimentos e, após entrarem em uma caverna, são presos por um grupo de Orcs, que dominam o interior das montanhas.

Embora Gandalf consiga salvar o grupo, em meio a confusão, Bilbo se perde. É aqui que ocorre um dos momentos mais interessante para aqueles que leram primeiro a trilogia Senhor dos Anéis ou apenas viram aos filmes: depois de uma queda, Bilbo acorda próximo a um lago e encontra um anel. Do lago, porém, surge o gollum Sméagol.

Tolkien, como profundo conhecedor de mitologia, sabia da carga simbólica dos anéis. Tanto que sua obra máxima tem influência da lenda dos Anéis de Nibelungo. Mas, em “O Hobbit”, apesar da função na trama, o anel não chega nem perto daquilo que se tornará na trilogia. Sinceramente, o anel é tão chinfrim que se perde a vontade de comprar a edição especial em blu-ray do “Senhor do Anéis”.

Os trailers de “O Hobbit” apontam o aprumo concedido por Peter Jackson à cena na qual o anel será encontrado. Algo coerente com o fato da primeira trilogia já ter ganhado as telonas e telinhas e com o conhecimento do espectador, mas que não guarda eco no livro.

Melhor do que o encontro do anel são os diálogos entre Bilbo e Sméagol. Já em uma antecipação da futura trilogia, Sméagol quer o anel. Esse longo encontro é das passagens mais deliciosas e instigantes do livro. Só para vocês terem uma ideia, eles travam uma disputa de advinhas para saber qual dos dois ficará com o precioso!

O talento de Tolkien se revela na capacidade de, com um simples jogo de charadas, aprofundar a psique de Bilbo. Se antes apenas o acusavam de ter talento de ladrão (acho que para o Brasil, seria mais correto chamá-lo de malandro!), conseguimos entrever sua astúcia. Até então, apenas as histórias de seus antepassados confirmavam as lendas sobre as habilidades de Bilbo. Ainda no começo do livro, ficamos sabendo do quanto os pais de Bilbo eram fantásticos.

Com uso dos poderes de invisibilidade do anel, Bilbo consegue fugir de Sméagol e sair das cavernas. Sem revelar os poderes do anel aos seus companheiros, ele surge no meio do grupo, elevando sua reputação, que irá em uma crescente até o final do livro. O grupo, porém, não está a salvo. Eles precisarão subir no alto das árvores para fugir dos wargs, uma espécie de lobo, que os perseguem. (É assustador ver Gandalf subindo em uma árvore para se proteger! Definitivamente ele tomou algumas lições com o mago Merlin antes da formar a sociedade do anel...). Eles são salvos pelas águias que vivem nos altos das montanhas, e são amigas de Gandalf.

Algo que chama atenção do leitor nessa parte inicial do livro é a relação quase paternal entre Bilbo e Gandalf. Este confia nas capacidades do hobbit, e o defende perante os anões e mesmo perante nós, leitores: Bilbo surge como uma figura frágil no inicio do livro. O que nos permite imaginá-lo como um herói é a opinião do mago, as histórias sobre seus ancestrais e o fato dele ser o protagonista!

Hoje, paramos por aqui. Em breve retomaremos nossos comentários sobre “O Hobbit.

Ansiosos com a trilogia cinematográfica?

Leia a PARTE 2.