Invocação do Mal (2)

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    Nota8.5

    UM TERROR DE OBJETOS

     

    Atenção! Alguns comentários podem ser considerados SPOILES por alguns leitores. Avisarei o momento.

    Como é bom ver um diretor crescendo! James Wan parece estar entrando na maturidade. Ele tem cinco filmes em seu currículo, incluindo o primeiro ‘Jogos Mortais’. Este já possuía muitas qualidades (que se tornaram caricaturas nos demais), mas limitadas ao gênero do terror. Apesar de pertencer ao mesmo gênero, o atual ‘Invocação do Mal’ (The Conjuring) tem qualidades acima dos gêneros. Vi apenas esses dois filmes do diretor, mas já coloquei ‘Sobrenatural’ (de 2010) na lista! Wan dará adeus ao gênero com ‘Sobrenatural 2’ e irá se dedicar ao novo ‘Velozes e Furiosos’. Estou na torcida por ele!

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    Seu filme atual revela imensas qualidades. E não são apenas aquelas que agradam à crítica. Para vocês terem ideia, na sessão de ‘Invocação do Mal’ que fui (ficou sinistra essa frase!), o público realmente se pelou de medo! A história tem um pé na realidade. Ed e Lorraine Warren formaram o casal mais famoso dos Estados Unidos em investigação de casos paranormais. Eles têm ligação com o famosíssimo caso de Amitivylle.

    O prólogo de ‘Invocação do Mal’, depois de contextualizar a história do casal, insere um “baseado em um caso real” que pode impressionar os mais sensíveis. Trata-se do caso da família Perron (ou caso Harrisville), formada pelo casal Roger (Ron Livinsgton) e Carlyn Perron (Lili Taylor) e suas cinco filhas. Acontecimentos estranhos na casa de campo recém comprada fazem eles chamarem Ed e Lorraine Warren, respectivamente, Patrick Wilson (o Coruja II, de ‘Watchman’) e Vera Farmiga (nossa velha conhecida das resenhas de ‘Bates Motel’).

    O filme tem todos os elementos do subgênero casa mal assombrada. O roteiro não apresenta nenhuma novidade. Nas mãos de um diretor mediano, geraria um filme mediano. A direção de Wan e seu excelente elenco são a cola que mantém o filme de pé.

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    Ainda no prólogo, somos apresentados ao caso Annabelle, a boneca demoníaca. O nível de tensão começa a subir. Em seguida, somos apresentados para a família Perron. Wan opta por uma apresentação naturalista. Os Perron são gente como a gente! Os atores conseguem ser tão carismáticos que logo nos afeiçoamos. Esse vínculo é importantíssimo para nosso envolvimento.

    Grande responsável pelo filme ser realmente assustador é o suspense progressivo. A primeira sequência da família Perron na casa é leve, com uma câmera flutuando ao som de Time of the Season. É uma casa comum. E isto assusta! Poderia ser até nossa casa… Nesse começo, apenas duas pistas de que algo estranho vai acontecer.

    O terror segue em uma espiral crescente. Primeiro um pé puxado de leve. Depois um puxão forte. Mais tarde um puxão para fora da cama. Quando nos 15 minutos finais o terror é explícito já estamos tomados pelo pavor, algo muito mais forte do que o terror!

    Alguns comentários abaixo contém SPOILERS.

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    James Wan leva tão a risca a máxima do terror “menos é mais” que quando mostra os espíritos é pouco. Em parte do ritual de exorcismo a vítima está debaixo de um cobertor. E a primeira aparição de um espírito é tão rápida que não conseguimos decodificá-la. Vimos a ameaça, mas de relance. Fantasiemos o resto!

    O trabalho de câmera é essencial para o sucesso da narrativa. Seus movimentos e ângulos são muito bem trabalhados, gerando sequências muito interessantes. Esses elementos são responsáveis por boa parte dos sustos. E como a fotografia não abusa das sombras (mas a escuridão existe…) e evitam-se os efeitos sonoros, não temos grandes elementos que indiquem as ameaças. Qualquer hora é hora. Nunca sabemos quando, num traveling, podemos cruzar com um susto.

    A preferência pela lente normal (que não distorce a imagem) somada à profundidade de campo produz uma imagem próxima ao do olho humano. Em outras palavras, o cenário parece normal. Não há distorção aparente do ambiente. O terror é produzido pela iluminação, pelo movimento da câmera e pelos objetos.

    ‘Invocação do Mal’ é um filme de alta técnica, sem deixar de ser orgânico. Nunca a direção se põe à frente do medo. Não há nenhum excesso estilístico. Tudo está a serviço do suspense!

    Um terror de objetos

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    Todo filme de casa mal assombrada é o que apelidei de terror de objetos. O filme de Wan não traz novidades, apenas faz um trabalho muito competente!

    Em boa parte, vemos somente a casa, e nada de espíritos. E a soma do uso de uma lente normal (produzindo uma imagem próxima ao olho humano) e da direção de arte, cria um ambiente aparentemente normal, como a minha ou a sua casa. Mesmo no porão não há nada surpreendente. E a ampla profundidade de campo permite que enxerguemos todo o cenário. A sensação de que a ameaça pode sair de qualquer lugar é constante. Esse efeito é possível graças à informação dada pelo casal Warren no começo. Os objetos não são possuídos; eles servem de condutores para espíritos malignos! MEDO!!!

    Alguns objetos específicos cumprem a função de condutores, como a boneca Annabella, um cordão ou a caixa de música encontrada pela filha caçula. À medida que a história progride, a casa se torna uma ameaça. Tudo representa perigo. Nunca sabemos o que haverá por de trás de uma porta ou dentro do armário. Mais uma vez os ângulos da câmera são essenciais para o terror. Em último grau, os fantasmas são mais uma mobília!

    A ênfase nos objetos vai da primeira à última cena. A primeira imagem do filme é um close da boneca, capaz de gerar incômodo nos mais corajosos. O último plano, depois de uma frase de Ed Warren sobre a necessidade de crer para ver, é da caixinha de música. Ela simplesmente toca e seu espelho gira. Já ocupamos o lugar dos Perron.

     

     

    No primeiro degrau, as atrizes do filme. No segundo degrau, as 5 filhas do casal Perron

    No primeiro degrau, as atrizes do filme. No segundo degrau, as 5 filhas do casal Perron

    P.S.: Caso alguém deseje saber mais sobre o caso Perron, visite o link http://www.assombrado.com.br/2013/09/harrisville-historia-real-do-filme.html, do qual retiramos a última imagem desta resenha.

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