“O verdadeiro lugar de
nascimento é aquele em que
lançamos pela primeira vez
um olhar inteligente sobre
nós mesmos (...)”

Marguerite Yourcenar

Este foi o cartão de Natal enviado pela juíza Marilena Soares a João Guilherme Estrella em dezembro de 1996. Ele, que na adolescência tinha sido o típico garoto da zona sul carioca, na idade adulta havia se transformado no maior vendedor de drogas do Rio. Preso em 1995 e aguardando julgamento, João já havia percorrido, e ainda percorreria, um longo caminho para, finalmente, entender o que realmente continham aquelas palavras
da juíza que era considerada uma das mais rigorosas do País.

É a trajetória deste João, que poderia ser a de muitos outros jovens no mundo, que conta Meu Nome não É Johnny. Inspirado no livro homônimo do jornalista Guilherme Fiúza, o longa-metragem é dirigido por Mauro Lima e produzido pela Atitude Produções. A produção é de Mariza Leão, que também assina o roteiro com o diretor
Mauro Lima. A história de João Guilherme Estrella é real. Nascido em uma família de classe média do Rio de Janeiro, filho de um diretor do extinto Banco Nacional, ele cresceu no Jardim Botânico, freqüentou os melhores colégios e tinha amigos entre as famílias mais influentes da capital carioca. João era inteligente, carismático e popular. Viveu intensamente os efervescentes anos 80 e 90. E foi exatamente nesta época de aventuras e descobertas que acabou descobrindo também o universo das drogas. Sem jamais precisar pisar em uma favela, acabou se tornando um dos maiores vendedores de drogas do asfalto carioca.

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Preso, em vez das animadas festas que promovia, passou a freqüentar o banco dos réus e o submundo do sistema carcerário brasileiro. João foi até o inferno. Mas voltou. Sua história é extraordinária e expõe as ilusões, os impasses e a dor da perda de limites em busca do prazer a qualquer preço. Sua trajetória, expressa a maravilhosa capacidade humana de superação e transformação. Hoje João prepara o lançamento de seu primeiro disco solo como cantor e compositor, além de trabalhar como produtor musical de artistas como Ivo Meireles, Funk na Lata, dentre outros. Na ficção, João é vivido pelo ator Selton Mello, que divide a cena com um elenco formado por nomes como Cleo Pires, Julia Lemmertz, Cássia Kiss, Rafaela Mandeli, Eva Todor, André di Biasi, Giulio Lopes, entre outros. Meu Nome Não É Johnny tem fotografia Uli Burtin, direção de arte de Cláudio Amaral Peixoto e figurinos de Reka Koves. A coordenação da trilha sonora
é de Fabio Mondego.

Filmagens

Meu Nome Não é Johnny foi rodado em 55 locações diferentes, contou com 1500 figurantes e tem orçamento geral de R$ 6milhões. “A maior parte do tempo, nunca passávamos mais de um dia em uma locação. O João nunca fica no mesmo lugar. Ele só pára quando vai preso. Esta movimentação no cinema costuma ser sempre caríssima. Mas conseguimos aproveitar a verba da melhor maneira possível. Tenho muito orgulho da equação econômica do filme”, declara a produtora Mariza Leão. Além de cenas de época passadas nos mais variados cenários do Rio de Janeiro, já que o filme reproduz o cenário da capital carioca nos anos 60, 70, 80 e 90, a produção ainda encarou o desafio de rodar em locações no exterior, fato raro no cinema nacional. “Para começar, filmar os anos mais recentes é tão difícil quanto filmar o século passado.

O mundo mudou muito em tão pouco tempo. As filmagens no exterior, em Barcelona e Veneza, também exigiram planejamento extra. “A Europa é caríssima. Não houve co-produção. Contratei uma produtora em Barcelona, que organizou também a produção na Itália. Montamos uma equipe brasileira muito reduzida que iria para lá e que se juntou às equipes locais”, conta a produtora.

As filmagens em Veneza tiveram até um episódio engraçado. “Veja só. Depois de um dia inteiro de filmagem, com todas as dificuldades de logística que a cidade tem, o câmera diz: Temos de fazer de novo. Entrou um pêlo na lente. Imagine!”, relembra Mariza. “Mas foi a decisão certa. Imagine tudo ser estragado por causa de um pelo que entrou na câmera em Veneza. Um luxo. Mas no final, deu tudo certo”, brinca.

Produção – Mariza Leão

Antes de mais um trabalho, Meu Nome Não É Johnny sempre foi um projeto pessoal e especial para a produtora Mariza Leão. Com vasta experiência em produção de cinema, Mariza viu na história de João Guilherme Estrella a possibilidade de também contar a história de muitos jovens e famílias do Brasil e do mundo. Mais que produtora, Mariza é roteirista e idealizadora do projeto. Seu caminho até o longa-metragem foi traçado com projetos de sucesso de público e crítica.

Como o projeto de Meu Nome Não É Johnny nasceu?
Eu sou casada com um diretor de cinema, o Sérgio Rezende, com quem tenho três filhos. Estamos o tempo todo falando de cinema e de projetos de filmes. Minhas duas filhas também trabalham com cinema. Mas meu filho não. Ele é administrador de empresas e tem um olhar diferente sobre as questões do cinema. Um dia, ele me deu o livro do Guilherme Fiúza. Me disse: Este livro dá um filme. Eram oito horas da noite. Eu acabei de ler às quatro da manhã. De manhã, disse a ele: Meu filho, vou fazer este filme.

A partir daí, era preciso encontrar o autor do livro. Como foi o primeiro contato com o Guilherme Fiúza?
Liguei para o Guilherme e marquei de conhecê-lo. E levei junto a Maria, minha filha, que é poeta e montadora, pois achava que ela poderia me ajudar numa visão mais jovem sobre o filme. O João Estrella também estava nos esperando. Eles foram muito receptivos e simpáticos, mas disseram que já havia oito produtores interessados em comprar os direitos do livro. Eu decidi jogar tudo numa cartada só. Contar para eles qual era o ângulo que eu pretendia abordar no cinema. Eu estava profundamente apaixonada pelo livro e não admitia perdê-lo.

E como foi que Guilherme se rendeu à sua proposta?
Enquanto estava esperando a decisão deles, acordei um dia de madrugada e escrevi um e-mail dizendo por que deveria ser eu a produzir o filme. Isso foi em junho de 2004. Ele me diz até hoje que o e-mail o abalou profundamente. Na mensagem, eu dizia: “Eu quero fazer este filme. Como disse na sua casa, meu maior capital é minha energia, minha experiência, meu desejo. Já movi muitos moinhos e sempre o fiz a partir de um fôlego apaixonado...” Deu certo.


Um diretor papara Johnny
E como o Mauro Lima entrou para o projeto?
Quando tive a notícia de que era eu quem iria produzir o filme, procurei o Rodrigo Saturnino, da Sony Pictures, e ele leu o livro e ficou entusiasmado. Na hora, aceitou. Depois, mandei o livro para o Selton, que também entrou na hora. Mas ele me perguntou: Quem é o diretor? E eu: Não sei. Vamos pensar. No mesmo momento, muitos diretores começaram a me procurar. Mas foi a Kiki Lavigne, da Sony Pictures, que me disse: Por que não o Mauro Lima? Ele fez o Tainá, tem uma pegada jovem, é criativo e tem tudo para imprimir uma marca bacana nesse filme. Eu já tinha ouvido falar do Mauro, mas muito superficialmente. No dia em que o Mauro entrou na minha sala, eu nunca tinha o visto. Conversamos por uma hora e meia. E eu senti que ele era o cara. Assinamos o contrato no dia seguinte.

E como foi a contribuição dele para o filme, pois já de primeira fica claro que ele não é um mero ‘diretor contratado’?
Desconfio muito deste conceito. Acho que compreendemos muito mal isso. Um diretor pode ser convidado por um produtor para realizar um filme e fazer isso de forma absolutamente pessoal. O termo ‘diretor contratado’ é meio pejorativo no Brasil, como se fosse uma desonra um diretor aceitar o convite de um produtor para fazer um filme. Da mesma forma, o inverso. Quando um diretor convida um produtor para fazer um filme, ele não está contratando um contador de luxo. Ele está contratando alguém que imprimirá de forma inequívoca uma marca naquele projeto. Com o Mauro, estabeleci uma relação de cumplicidade e, ao mesmo tempo, aventura. Da época em que assinamos o contrato até as filmagens se passaram mais de dois anos. E posso dizer que a sua escolha foi uma dos meus maiores acertos neste projeto.

Como nasce um roteiro
Era sua idéia inicial também chamá-lo para escrever o roteiro?
Não. Eu já tinha recebido vários roteiros e não aprovado nenhum. Um dia, procurei o Marcelo Rubens Paiva e ele me disse: Por que você não chama o Mauro? Ele escreve tão bem. E não é que ele tinha razão? Mauro começou a trabalhar no projeto. E eu comecei a perceber que havia pontos na história que eu poderia agregar. Então, decidimos escrever juntos. E isso fica claro. O filme é um mix de nós dois. Nós sonhamos o filme juntos. E cada um, em sua área, deu o melhor de si.

O Elenco

Sobre a formação eclética do casting de Meu Nome Não É Johnny, a produtora Mariza Leão, é quem melhor o define: “Tivemos a preocupação de contar com nomes experientes, como Selton Mello, Júlia Lemmertz, Cássia Kiss, André di Biasi, Cleo Pires e Eva Todor, para o elenco do filme. Mas, antes de famosos, estes são atores capazes de dar para o filme o melhor de si, sem deixar que a fama se sobreponha ao personagem que cada um deles vivia. Para completar, atores não tão conhecidos do grande público, mas tão talentosos quanto, foram cruciais para o projeto. Orã Figueiredo, Luis Miranda, Giulio Lopes, Rafaela Mandelli, Gillray Coutinho e Kiko Mascarenhas não podiam faltar neste projeto. Estamos todos muito satisfeitos com nosso elenco.”

Com co-produção da Sony Pictures Home Entertainment, Globo Filmes, Teleimage e Apema, o filme tem orçamento geral de R$ 5,5 milhões e foi rodado no Rio, em Barcelona (Espanha) e Veneza (Itália).

 

Fonte: Downtown Filmes
Fotos: Yahoo!