O Rei Leão 3D
01.09.2011
Caio Viana

Quando as animações tradicionais da Disney ainda tinham qualidade, numa época quase mítica para os desenhos, eis que surgiu O Rei Leão, um dos grandes filmes de todos os tempos e um clássico indiscutível. Com sua abertura arrebatadora, personagens cativantes e canções que ficaram na mente de muitos, a obra é lembrada com carinho por qualquer um que se declare cinéfilo. Nesse ano de 2011, ela retorna aos cinemas para se unir à tecnologia 3D, aspecto que discutirei mais à frente.

Contando a história de Simba (Jonathan Taylor Thomas / Matthew Broderick), um leãozinho filho dos reis Mufasa (James Earl Jones) e Sarabi (Madge Sinclair), a película acompanha a jornada desde o seu nascimento até o exílio causado pelas maquinações de seu terrível tio Scar (Jeremy Irons) que deseja o trono a todo custo. Amparado pelas esquivas hienas, Scar acaba se tornando rei, enquanto Simba, contando com o auxílio dos divertidos amigos Timão (Nathan Lane) e Pumba (Ernie Sabella), busca encontrar seu lugar no ciclo da vida.

Aquilo que mais salta aos olhos durante toda a projeção de O Rei Leão são suas cores. Trabalhadas de maneira simples, porém inteligente pelos diretores Roger Allers e Rob Minkoff, é possível perceber as nuances que são aplicadas cada vez que há uma mudança na narrativa. Logo nos primeiros minutos, quando todos os animais caminham para prestigiar o nascimento do filho do rei, o nascer do sol surge enevoado, numa representação do filhote que mal chegou ao mundo, mas que já desnuda um ambiente estranho e rico em seu caminho. Em seguida, as nuvens se abrem para consagrar o futuro rei, que é envolto por uma cortina tecida pelo próprio sol, como se os céus abençoassem aquele ser que, um dia, ocupará o trono. Os cortes rápidos que acompanham a apresentação de Simba por Rafiki e o travelling que segue o descobrimento dos súditos pelo leãozinho só ajudam a completar a beleza do momento. E aqui podemos traçar um paralelo entre esta cena e outra na qual Mufasa morre por conta dos planos de Scar. É um momento triste para a história e justamente por isso, seus diretores fazem questão de posicioná-lo durante o ocaso, contrastando com a chegada de Simba ao mundo. É uma sincronia perfeita que aponta não só o início e o fim de um reinado, mas a morte de todo um mundo.

O contraponto entre a visão emblemática da natureza e o olhar dos pequenos leões é posto na tela com a mesma maestria. Quando Simba e Nala resolvem enganar Zazu a fim de chegarem ao Cemitério dos Elefantes, notem como as cores migram rapidamente para tons fortes, infantis e, até mesmo, oníricos, acompanhando a canção O Que Eu Quero Mais é Ser Rei. Os traços assumem uma postura cartunesca e o tom da narrativa se torna leve. O mesmo ocorre nas descobertas que Simba faz ao lado dos exilados Timão e Pùmba, onde o ambiente também é delicado e a visão do desconhecido fica evidenciada pelas cores marcantes dos insetos que os novos companheiros apresentam ao leãozinho.

Já quando é Scar toma conta da película, entram em cena batidas pesadas e sombrias da monumental trilha composta por Hans Zimmer e Elton John, e as tonalidades mudam para ocre e vermelho-sangue, denotando a essência do conspirador. Até mesmo a marcha das hienas com linhas simétricas traçadas no chão evidencia as tramas de Scar, precisas e trabalhadas à exaustão, ao longo do crescimento do seu sobrinho. De maneira eficaz os realizadores do projeto se utilizam também das cores para compor um jogo de luz e sombras que o filme apresenta em várias cenas, sendo a mais evocativa aquelaem que Simba e seu tio conversam sobre o Cemitério de Elefantes. Scar, recolhido embaixo de um pedregulho se mantém distante da luz, enquanto o filhote, cercado por ela, salta para lá e para cá fazendo perguntas e proferindo seus pensamentos inquietos, mas quando seu tio consegue chamar sua atenção para os planos que vêm traçando, automaticamente Simba se encaminha para as sombras e é engolfado por elas. A contradição criada pelos diretores entre o filhote e seu tio é, por sinal, escancarada ainda mais para o espectador em dois outros momentos distintos que, comumente, passam despercebidos. Quando em sua canção, ao lado de Nala e Zazu, Simba é elevado pelos animais às alturas, disposto a assumir o posto de futuro rei, reparem como o mesmo acontece com Scar ao ser conduzido ao ápice em seu covil enquanto as rochas se moldam ao seu redor, e sua cobiça não podia ser outra se não o próprio trono.

Porém o tom da narrativa é ágil e leve, e logo as maquinações de Scar são deixadas de lado para dar espaço a personagens como Timão e Pumba, lembrados com carinho por sua cômica participação através da memorável canção Hatuna Matata. Com um verso simples a dupla cativa crianças e adultos e seu carisma foi tamanho que eles acabaram ganhando um desenho próprio na época. Por sinal, a transição que traz o crescimento de Simba ao lado dos exilados é de fácil assimilação e exulta mais uma vez a sagacidade dos diretores ao entregar para as crianças uma passagem simples, mas que revela, sem o uso de palavras, a personalidade que Simba adquiriu enquanto esteve longe de casa.

A coloração rósea que surge no reencontro de Nala e do futuro rei não deixa de ser excepcional ao evocar o amor que existe entre os dois, mesmo com tantos anos de distância entre eles. E se encararmos o momento anterior com o que o sucede tudo se encaixa. Ainda inebriado pelos sentimentos latentes do romance, Simba revê Rafiki que o guia por um caminho tortuoso de galhos, raízes e pedras até alcançar o lago onde encara seu reflexo e, assim que nota que deve regressar à Pedra do Rei. Nesse ponto, Allers e Minkoff estão mostrando ao espectador como é difícil se descobrir, entender a si mesmo. Trata-se de uma trilha longa e sinuosa que todos precisamos cruzar para alcançar nosso verdadeiro destino. Se ainda restam dúvidas, basta notar os cometas que cingem o azul profundo do céu numa relação cósmica que começa a encaixar as peças em seus devidos lugares assim que Simba se dá conta de quem realmente é.

Voltando às canções, podemos compreender porque esse é um dos grandes atributos de O Rei Leão: todas elas funcionam de maneira orgânica com a narrativa, sem jamais parecerem forçadas. Surgem naturalmente e terminem da mesma maneira, e não estão presentes unicamente para inchar a duração da projeção, mas contam uma história.

É interessante ressaltar também a importância dada pelos criadores do projeto à natureza que, aqui, é reverenciada do início ao fim, seja no princípio quando mostra desde elefantes até formigas, dizendo com isso que todos são importantes para o equilíbrio, o ciclo sem fim, até mesmo o respeito que a África tem por seu rei. Os laços que Mufasa estabeleceu em seu domínio, numa tentativa de sempre ser justo e manter a ordem natural, se faz presente através da natureza vicejante que chega a fenecer quando Scar assume o trono e volta a florescer assim que Simba toma o lugar que é seu por direito. Notem também como no final, é a mesma natureza que traz trovões e raios e auxilia os animais em sua contenda.

Com um esmero nos detalhes, como as orelhas dos leões que refletem seus sentimentos momentâneos, era impossível a O Rei Leão ser encarado de outra forma que não um esplêndido filme, e é uma pena que seu retorno aos cinemas não tenha acontecido mais naturalmente, sem o auxílio do 3D, já que esse não só nada acrescenta à experiência como a deturpa em alguns momentos. Ainda assim, para aqueles que nunca tiveram a oportunidade de prestigiar a obra em tela grande, é uma chance que não deve ser jogada fora. Com ou sem 3D, todos os elementos que passamos a adorar ao longo da existência do filme estão presentes e são o bastante para garantir que a visita à sala escura seja uma experiência ímpar.


Nota:

Crítica por: Caio Viana (Blog)