Imortais

Após uma guerra entre seres imortais, os vencedores, auto-proclamados Deuses, aprisionaram os vencidos no monte Tártaro e lhes impôs o título de Titãs. O rei Hipérion (Mickey Rourke) se sentiu traído pelos senhores do Olimpo e quer libertar os Titãs. Os Deuses, segundo ordens de Zeus (Luke Evans), não interferem em conflitos terrenos, mas escolhem o humano Teseu (Henry Cavill) como líder contra Hipérion.

O herói se une à oráculo Phaedra (Freida Pinto) para encontrar o lendário Arco de Épiro antes do tirano.

Imortais tem o coração no lugar certo. O discurso preza o Correto, destacado pelo sermão de que só se tornam imortais na História aqueles que fazem o Bem. O filme de Tarsem Singh também se coloca num ponto interessante da atualidade, pois o vilão pode ser visto como representação da tirania e do terrorismo, forças que vem encontrando resistência crescente no globo. Trata-se, por fim, de uma obra engajada – e bastante frustrante em sua imprecisão.

Fala-se muito sobre a correção do caráter e dos atos, como se o fazer-o-bem fosse uma ação de valor positivo. A verdade é que o único meio que Teseu encontra de fazer valer o Bem é frustrar os intuitos do Mal. O roteiro é relativamente adequado na medida em que tira do protagonista o afã de agir bem e o substitui por uma vendeta pessoal calcada na escancarada vilanização de Hipérion. Antes aceitar que o herói não se baseia em uma noção de correto que pregá-la como se não fosse a mera resposta ao que já se provou malfazejo.

Daí se chega a outro problema sério de Imortais: suas omissões quanto ao mito da Titanomaquia, a guerra entre os Titãs e os Deuses. Ao retirar dos primeiros toda a condição divina (eles atacam com armas rústicas e sua agilidade é limitada) e até mesmo humana (não possuem fala, organização, motivações), ele se tornam perfeitos coringas vilanescos, como os orcs de O Senhor dos Anéis ou os stormtroopers da saga Star Wars. Como a condição pré-Titanomaquia dos Titãs nunca é revelada, eles são jogados dentro do caldeirão de horrores que os Deuses, os vencedores, apregoam para reafirmarem seu poder.

Esse filme, no entanto, não trata da potência mística e etérea dos seres imortais. Tanto Titãs quanto Deuses possuem matérias humanas e estão sujeitos a todo tipo de vilipêndio físico: seus corpos sangram, perdem membros, são decapitados, partidos ao meio e inteiramente pulverizados. Embora o diretor Tarsem Singh se esmere na plasticidade das imagens, muitas vezes a própria assepsia do espetáculo visual está em conflito com a fisicalidade exposta – um bom exemplo é a cena em que várias cabeças explodem em câmera lenta. Dessa forma, Singh apresenta uma alternativa sincera para a asséptica violência hollywoodiana.

Um momento rápido, quando Teseu talha a perna para fazer um rastro de sangue em um labirinto, reforça a importância do físico. É por isso que a má atuação que se destaca é a de Freida Pinto: a importância de todos os atores está em suas compleições. Phaedra está quase sempre coberta e sua função narrativa não é física – e seu principal momento como personagem é reforço dessa condição. Pouco importa se Cavill, Evans e outros intérpretes de homens e Deuses expressam-se bem, desde que seus corpos latejem na tela.

A luta climática entre Hipérion e Teseu chega a destoar da ação predominante no filme, pois cada golpe pretende manifestar a violência do choque de um físico contra o outro. A filmagem é tipicamente frenética, e a coreografia se assemelha à luta livre – às vezes na simplicidade bruta de um soco ou chute e às vezes na engenhosidade dos movimentos. O diretor, porém, está sempre buscando o impacto mais material da carne e dos ossos.

Por fim, com Imortais é possível notar que a estrutura épica que o cinema de ação adotou se baseia fundamentalmente em Homero. As errâncias, acompanhadas de perto pelos Deuses, visam a um fim distante, mas a narrativa se desenrola em ações episódicas, estágios para essa meta final. O filme adota um arcabouço homérico, um ponto de vista reacionário e um discurso maniqueísta, mas Singh acerta ao transitar entre certos padrões do gênero.


Nota:

 

Crítica por: Pedro Costa De Biasi (Plugou)