Diários da Motocicleta

Chama muito a atenção que a vida de um extraordinário representante da história relativamente recente da América Latina não tenha sido retratado em algum filme importante até hoje. O norte americano Robert Redford teve que se interessar pelo projeto de mostrar a vida de Che Guevara antes de se tornar o comandante da Revolução Cubana para que algo saísse de fato do papel, Pensando bem tal espera valeu a pena Diários de Motocicleta é o que o cinema tem de melhor. É sensível, leve, com várias piadas muito bem colocadas e por outro lado profundo, intenso, reflexivo.
Este é a melhor produção do brasileiro Walter Salles, o que não é pouco já que tem na bagagem pérolas como Central do Brasil e Abril Despedaçado. Os trabalhos de Salles sempre se preocupam em transmitir uma busca de identidade dos personagens retratados nos seus filmes e essa característica fica mais explícita em Diários de Motocicleta que demorou 5 anos para ficar pronto.

O roteiro foi baseado nos livros escritos por Che Guevara e seu companheiro Alberto Granado a partir da viagem feita por eles em 1952. O objetivo inicial era percorrer 8 000 quilómetros através da América latina numa velha moto Norton 500 ,de 1939 (ao todo foram usadas 5 motos durante as filmagens) apelidada carinhosamente por eles de La Poderosa.

Che, na época apenas Ernesto Guevara de la Serna, era um jovem de classe média alta que está prestes a terminar seu curso de medicina. Granado, um biquímico que queria comemorar seus 30 anos na estrada. Num primeiro momento são jovens comuns, querendo conhecer a América só vista em livros. Levam um choque ao entrar em contato com uma realidade dura e por eles desconhecidas até então.

A viagem tem início na prórpia Argentina, eles vão descendo pelo sul, com prévia parada em Miramar para visitar uma namoradinha de Guevara.
Depois vão para o Chile (a moto pifa definitivamente nesta parte da viagem e eles continuam a pé), é ali que têm um maior contato com pessoas que enfrentam a terrível realidade latino americana, falam com um casal que tem de vaijar durante horas para conseguir uma vaga numa mina. Têm contato também con índios, um deles está com um boi, Guevara o adverte que o animal está ficando cego, a reação de indiferença e a resposta do índio fazem com que os personagens e nós mesmos como espectadores fiquemos angustiados.
A fotografia de Eric Gautier é primorosa, vamos sendo apresentados a todos os locais pelas quais passam mas não de forma simplista como cartào postal e sim como parte da transformação que os personagens estão vivendo. O auge desta fita é o fim quando chegam até o leprosário San Pablo na Amazônia peruana. É ali que definitivamente Ernesto Ghuevara está prestes a ser alguém muito diferente do que costumava ser. No leprosário os médicos e enfermeiras ficavam de um lado do rio e os doentes do outro. Um dia antes de partirem todos estão comemorando o aniversário de Che, ele participa um pouco da festa mas olha para o outro lado do rio onde estão os enfermos e decide que passará para o outro lado a nado!! Mesmo sendo de noite e sofrendo seriamente de crises de asma. Mais emblemático impossível.
A grandeza de Walter Salles está em ter uma mão firme para mostrar cenas como esta mas nunca de forma panfletária.
Não levante da poltrona do cinema sem ver as fotos originais da viagem há também uma pequena cena de Alberto Granado hoje, um velhinho de 83 anos que mora em Cuba com a esposa e filhos.
Gael García Bernal vive um Guevara excepcional, com uma atuação contida e vemos toda atrnsformação por que passa através de seu olhar. Rodrigo de la Serna (que é primo em segundo grau de Guevara) vive Granado de forma irretocável, com alegría e bom humor, chegou até a engordar 12 quilos pois Granado era gordinho na época.
Diários de Motocicleta fez sucesso no Festival de Sundance e agora está concorrendo ä Palma de Ouro em Cannes. Toda a equipe do Cinepop vai ficar roendo as unhas até lá e espera que sinceramente ganhe tão merecido prêmio.

Nota:
Crítica por: Andrea Don
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